Energia (Qi), Sangue (Xue), Líquidos Corporais (Jin-Ye)

Qi (energia), Xue (Sangue), e Jin-Ye (líquidos corporais)

Qi, xue e jin-ye, são as substancias fundamentais do corpo humano e contribuem para manutenção das atividades corporais normais. A presença e a ação refletem na função dos demais órgãos e tecidos. Qi, xue, e jin-ye, junto com os órgãos zang-fu, dos canais e colaterais constituem na teoria básica da fisiologia humana da Medicina Tradicional Chinesa.

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Qi (Energia)

Qi tem relação com os processos fisiológicos, patológicos e com o tratamento clínico. A palavra Qi, tem o sentido de matéria e de função. Por exemplo, o Qi puro, o Qi turbio e o Qi das substancias nutritivas são materiais enquanto que o Qi do coração, pulmão, baço, rim, estômago e dos canais e colaterais são funcionais. A matéria e a função são dois conceitos diferentes, mas complementares e indivisíveis, porque a função deve se basear na composição material na qual se reflete na atividade funcional.
A classificação do Qi do corpo humano varia de acordo com sua origem, distribuição e função.

  • O Qi original (yuanqi) se chama de Qi do Rim ou Qi congênito, porque é herdado dos pais e está relacionado com a função reprodutiva.
  • O Qi puro (qingqi) e o Qi dos alimentos são denominados também Qi adquirido devido ao que se obtém da atmosfera e dos alimentos respectivamente, depois do nascimento.
  • O Qi essencial (jingqi) está formado pela união do Qi puro e do Qi dos alimentos que se reúnem no tórax. Sua função é nutrir o coração e os pulmões e promover suas funções.
  • O Qi nutritivo (yingqi) e o Qi defensivo (weiqi) provem do Qi das substancias nutritivas.
    • O Qi nutritivo circula nos vasos sanguíneos e se distribuem nos órgãos zang-fu e demais órgãos a fim de nutri-los.
    • O Qi defensivo circula fora dos vasos sanguíneos e se distribuem na pele e nos músculos para aquecer, nutrir e regular a abertura e fechamento dos poros da pele com a finalidade de proteger o corpo da invasão dos fatores patógenos exógenos, por isso se chama Qi

Sobre a ação do Qi herdado e do Qi Adquirido, os zang-fu desenvolvem suas funções e geram por sua vez o Qi dos zang-fu e dos canais e colaterais. Assim temos os Qi do coração, pulmão, baço, rim, estomago e o Qi dos canais e colaterais. A expressão deqi (chegar ao Qi) na terapêutica acupuntural significa precisamente a aparição da sensação quando a punção (penetração da agulha) cumpriu seu propósito de ativar a função dos canais e colaterais. É uma questão de sensibilidade e experiência do acupunturista.

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Xue (Sangue)

A essência obtida dos alimentos depois da digestão e a absorção por parte do estômago e do baço passa pelo coração e pulmão, se converte em sangue (xue) vermelho mediante a ação de transformação. O rim armazena o jing (essência) de onde gera a medula que por sua vez gera o sangue. O Qi do rim ao promover a função do baço, do pulmão e do coração, estimula a formação de sangue.  Consequentemente o Qi nutritivo, os líquidos e o jing (essência) do rim que constituem o sangue, são a base material das atividades do sangue que circula nos vasos sanguíneos nutrindo todo o corpo promovendo a atividade funcional dos órgãos e tecidos.
Xue e Qi possuem uma estreita relação. A formação e a circulação de xue (sangue) dependem do Qi (energia), enquanto que a formação e distribuição de Qi estão relacionadas com Xue.  Clinicamente, Xu (deficiência) de Qi conduz a Xu (deficiência) de Xue e o inverso também, a estagnação de Qi conduz a estase de Xue e o inverso também. Esta relação tem origem na expressão “Qi é o comandante do Xue, Xue, mãe do Qi” na Medicina Tradicional Chinesa.

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Jin-Ye (líquidos corporais)

Os alimentos, especialmente as bebidas ao serem absorvidas são transformados em líquidos corporais, os quais se distribuem no sangue, nos tecidos e interstícios do corpo. Os líquidos se dividem em duas classes: Jin e Ye.
Os de maior fluidez, transparência e pouco densos que nutrem os músculos e umedecem a pele se chamam Jin, e os escuros, espessos e de menor fluidez que preenchem e lubrificam as cavidades das articulações, o cérebro, a medula e os interstícios corporais se chamam Ye.
O suor, a urina e a saliva provem do Jin-Ye. O sangue contém também uma grande quantidade de líquidos corporais. Sendo assim a fisiologia e patologia do suor, urina, saliva e sangue estão relacionadas estreitamente com o metabolismo normal de Jin-Ye.

Meridianos e Colaterais – Jing-Luo

Jing-Luo (meridianos e colaterais)

Os jing-luo (meridianos e colaterais) se distribuem por todo o corpo, se relacionam internamente com os zang-fu (órgãos e vísceras) e externamente com os diversos tecidos e órgãos, formando assim integralmente um todo. Os jing são os troncos principais e pertencem aos seus respectivos órgãos zang-fu, enquanto os luo são os ramos de jing e se distribuem por todo o corpo.

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Nomenclatura e classificação

O sistema de meridianos é composto por doze meridianos regulares, oito extraordinários e quinze colaterais. Os doze regulares junto com o meridiano Ren e Du dos oito extraordinários formam “os catorze meridianos”, ao longo dos quais são os pontos de acupuntura e moxabustão.

O nome completo de cada um dos doze meridianos está formado em três partes:

  • Mão ou Pé – O meridiano termina ou inicia nas mãos ou nos pés
  • Yin ou Yang – O meridiano que percorre a face interna pertence ao Yin e o que percorre a face externa pertence ao Yang. Yin se divide em taiyin, shaoyin e jueyin, por sua vez o Yang se divide em taiyang, yangming e shaoyang
  • Zang ou Fu – O órgão ao qual o meridiano pertence

Por exemplo, o canal que termina nas mãos, passa pela face interior das extremidades superiores e pertence ao pulmão, se chama de Meridiano do Pulmão Taiyin da Mão.
Os oito meridianos extraordinários são Du, Ren, Chong, Dai, Yangqiao, Yinqiao, Yangwei, Yinwei, estes não pertencem ou se conectam diretamente com os órgãos zang-fu, e seus trajetos são diferentes dos doze meridianos regulares.

O nome de cada um destes oito meridianos explica um sentido especial:

  • Du significa governar, porque o meridiano Du governa todos os meridianos Yang
  • Ren significa “estar encarregado de”, porque o meridiano Ren é responsável por todos os meridianos Yin
  • Chong significa “vital”, porque o meridiano Chong é o canal vital que se comunica com todos os outros meridianos
  • Dai é o meridiano da ligação, um cinturão que une todos os meridianos
  • Qiao significa calcanhar, quer dizer que os meridianos Yinqiao e Yangqiao possuem a origem no pé e passam agilidade
  • Wei possui o conceito de conexão, o que significa que os meridianos Yinwei e Yangwei conectam-se respectivamente com todos os meridianos Yin e Yang

Cada um dos doze meridianos regulares tem um ramo colateral, entretanto, existem outros três ramos colaterais dados pelos canais Du, Ren e Baço (este tem dois colaterais). O conjunto destes ramos colaterais é chamado “os quinze colaterais”.

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Sistema dos Meridianos e Colaterais com os 12 regulares, os 8 extraordinários e os 15 colaterais

Os doze meridianos regulares se distribuem tanto pelo interior como pelo exterior de todo o corpo. Qi (energia) e Xue (sangue) circulam nos meridianos definidos por uma ordem, começando pelo meridiano do Pulmão Taiyin da Mão e passando por todos os outros meridianos até chegar ao Meridiano do Fígado Jueyin do Pé, onde completa um ciclo, então volta ao Meridiano do Pulmão Taiyin da Mão para começar outro ciclo.

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Ordem da circulação de Qi e Xue entre os meridianos regulares

Funções dos Meridianos e Colaterais

A função dos Meridianos e Colaterais é transportar qi e xue, aquecer e nutrir os tecidos, conectar todo o corpo de maneira que se mantenham as estruturas completas e coordenar os diversos órgãos zang-fu, as extremidades, ossos, etc, fazendo que o organismo seja uma unidade orgânica integral. Estas funções desempenham um papel muito importante no trabalho clínico.

Patologicamente os meridianos e colaterais são responsáveis pela ocorrência e transmissão das enfermidades. Quando a função dos meridianos e colaterais é anormal, o corpo está exposto ao ataque dos fatores patógenos exógenos, uma vez que o organismo seja afetado, estes fatores são transmitidos do exterior para o interior do organismo, do superficial para o profundo através dos meridianos e colaterais. Quando os fatores patógenos exógenos invadem a superfície do corpo, podemos apresentar aversão ao frio, febre, dor de cabeça. Se estes fatores são transmitidos ao pulmão, começamos a apresentar os sinais e sintomas pulmonares, tais como tosse, respiração asmática, dor no peito, etc.

Os meridianos e colaterais não são somente a entrada para os fatores patógenos exógenos, como também são condutores de importante influencia patógena entre os próprios órgãos zang-fu, entre os tecidos e órgãos na superfície do corpo. Por exemplo, a disfunção do fígado na dispersão e drenagem produz a disfunção por declínio do estomago que provoca náusea e vomito, a ulceração e dor queimante na língua são causadas pela ascensão do Fogo do coração.

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Na prática clínica, as enfermidades podem ser determinadas segundo seus sintomas e sinais, sua localização, seu trajeto nos meridianos e colaterais e segundo os órgãos zang-fu ao qual pertencem. Por exemplo, a função de dispersão e drenagem do fígado facilita a secreção e a produção da bílis. O meridiano do fígado está distribuído na região do hipocôndrio, devido a isso, a pele amarela e a dor do hipocôndrio são sintomas de enfermidades do fígado, enquanto tosse e dores no peito indicam desordem no pulmão que tem a função respiratória e seu canal se origina no tórax. Também se determinamos as enfermidades de acordo com os pontos dolorosos e reações anormais ao longo da região onde circulam os meridianos, ou em certos pontos do mesmo. Por exemplo, o caso de apendicite, podemos encontrar um ponto doloroso ao pressionar o ponto Lanwei (apêndice, extra), outro exemplo é o caso de enfermidade no pulmão podemos encontrar um ponto doloroso ao pressionar o ponto Feishu (VB13).

A teoria dos meridianos e colaterais é um guia de amplo uso no tratamento das enfermidades em diversas especialidades médicas, sobre tudo, a acupuntura e moxabustão. Ao tratar as enfermidades com acupuntura e moxabustão devemos descobrir antes de tudo as mudanças patológicas de certos meridianos e certos órgãos zang-fu afetados, depois, selecionar os pontos na região proximal e distal, no canal correspondente pra proceder e regular a circulação de qi, xue, e dos meridianos e colaterais.

Teoria dos Cinco Elementos

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Wu Xing – Cinco Elementos

A teoria dos cinco elementos sustenta que a Madeira, o Fogo, a Terra, o Metal e a Água são os elementos básicos que constituem o mundo material. Entre eles, existe uma relação de intergeração e interinibição, no qual determinam seu estado de constante mudança e movimento.
Mediante a teoria dos cinco elementos se explica principalmente da relação de intergeração, interdominancia, excesso dominância e contra-dominância entre eles. A medicina tradicional chinesesa usa esta teoria para classificar em diversas categorias os fenômenos naturais, a maioria dos órgãos, tecidos e emoções humanas, e interpreta as relações entre a fisiopatologia do corpo humano e o meio ambiente natural, aplicando a cada uma destas classificações as leis de intergeração, interdominancia, excesso em dominancia e contra-dominância dos cinco elementos, estas teorias são como o guia de prática médica.

Atribuição das coisas aos cinco elementos

O homem vive na natureza. O meio ambiente natural – as mudanças climáticas e as condições geográficas – influem consideravelmente em suas atividades fisiologicas. Esta é a manifestação da dependencia entre homem e meio ambiente assim como sua forma de se adaptar a ele. Em outras palavras, existe uma interdependencia entre o homem e a natureza. Partindo desse principio, a medicina tradicional chinesa relaciona logicamente a fisiologia e patologia dos órgãos zang-fu e tecidos com a os fatores do meio ambiente. Estes fatores são classificados em cinco elementos básicos. Estes fatores são classificados em cinco categorias se baseando nos cinco elementos. Vários desenhos e analogias são usadas para explicar as complicadas relações entre a patologia e fisiologia e a correlação entre o homem e o meio ambiente natural.

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As cinco categorias das coisas classificadas de acordo com os Cinco Elementos

Relação de integeração, interdominancia, excesso e dominancia e contra-dominancia dos cinco elementos

A intergeração implica em promover o crescimento. A ordem da geração é: a Madeira é derrubada das árvores para gerar o Fogo, o Fogo por sua vez queima a matéria e gera Terra, a Terra em suas profundezas contem o minério e gera o Metal, do Metal constitui as rochas que criam os lençóis freáticos que armazena e faz gerar a Água e a Água por sua vez chega até o solo para nutrir e faz criar a madeira, estabelecendo um circulo que continua se repetindo de forma indefinida, sobre certas circunstancias cada elemento é sempre gerado (filho) e outro o gerador (mãe), isto é conhecido como a relação “mãe-e-filho” dos cinco elementos. Por exemplo, a Madeira (filho) é gerada pela Água (mãe), porém o Fogo (filho) é gerado pela Madeira (mãe). Assim a Madeira é a gerada (filha da água) e geradora (mãe do fogo).

A interdominancia provoca um controle mútuo e inibição mútua e também a interdominancia significa que cada elemento pode ser as vezes dominante e dominando seguindo a mesma ordem  da intergeração, por exemplo, a Madeira domina a Terra pois suga seus nutrientes para crescer, a Terra domina o Água pois passa a suga-la para se alimentar, a Água domina o Fogo pois apaga para que ele não cresça, o Fogo domina o Metal derretendo-o quando bem quiser, e o Metal domina a Madeira pois a corta para que ela também não cresça, estabelecendo o circulo repetitivo anteriormente mencionado. Exemplo: a Madeira é as vezes dominada pelo Metal e dominante sobre a Terra.

A complicada correlação da geração e controle das coisas é indispensável para a aplicação da Medicina Chinesa. Sem a promoção do crescimento não há nascimento nem desenvolvimento, sem controle não haverá crescimento e este seria excessivo de tal forma que seria prejudicial. Por exemplo, o elemento Madeira gera o Fogo e domina também a Terra, porém a Terra por sua vez gera Metal e domina a Água. No processo de promoção do crescimento reside o controle enquanto no processo de controle existe a promoção do crescimento, eles se opõem e também cooperam entre si. Por tanto um equilíbrio relativo é mantido entre a intergeração e interdominancia , o qual assegura o crescimento e desenvolvimento normal das coisas. Em caso de excesso ou deficiência nos cinco elementos, aparece o fenômeno de interdominancia anormal que é conhecido como excesso em dominância ou contra-dominancia.

O excesso em dominância é como o lançamento de um ataque quando a contraparte está fraca.  Clinicamente este fenômeno se denomina interdominancia. Por exemplo, se pode dizer “excesso em dominância da Madeira sobre a Terra” ou “a dominância da Madeira sobre a Terra”. A ordem de excesso o em dominância é o mesmo da interdominancia. Mas não é uma interdominancia normal, é um dano que ocorre devido a certas condições. Contra-dominancia é o mesmo que atropelar, passar por. A ordem é justamente o oposto de interdominancia.

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A relação de intergeração, interdominância, excesso dominância e contra-dominância entre os cinco elementos: Madeira, Fogo, Terra, Metal e Água

Os fenômenos de excesso em dominância e de contradominancia causados por excesso ou insuficiência de qualquer que seja dos cinco elementos em geral se manifestam simultaneamente. Por exemplo, a Madeira não somente pode dominar em excesso a Terra como também contra-domina o Metal. Outro exemplo: quando a Madeira está em deficiência é dominada pelo Metal e ao mesmo tempo contra-dominada pela Terra.

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Excesso em dominância e contra-dominância entre os cinco elementos

A aplicação da teoria dos cinco elementos na medicina significa interpretar a relação de interdependência e intercontrole entre os órgãos zang-fu, os tecidos e a correlação entre homem e natureza aplicando a relação de intergeração, interdominancia, excesso em dominância e contra-dominância dos cinco elementos, interpretar as mudanças etiológicas e o mecanismo da enfermidade.

Quando o funcionamento de um dos órgãos internos não é bom pode afetar ou contagiar os demais órgãos. De acordo com a teoria dos cinco elementos, as complexas mudanças que ocorrem em uma enfermidade podem apresentar as seguintes condições: excesso em dominância, contra-dominância, desordens da “mãe que afeta filho”, e vice-versa. As enfermidades do pulmão, por exemplo, podem ter origem nas mudanças patológicas do pulmão, mas também pode ser devido a uma desordem do baço, o que pode ser explicado como “a desordem da mãe que afeta o filho”, se a causa for alguma desordem do Rim, se explica como “a desordem de filho afeta a mãe”, mas as vezes a enfermidade do pulmão é causada pela desordem do coração, então se diz que “o fogo está em excesso-dominância sobre o metal”, caso a enfermidade do pulmão seja causada pela desordem de fígado, se denomina como “a madeira está em contra-dominância sobre o metal”.

Os cinco elementos e suas relações de intergeração, interdominancia, excesso dominância e contra-dominância são usados como um método de orientação no diagnóstico da enfermidade. Por exemplo, se notarmos uma cor esverdeada no rosto acompanhado de uma preferência por alimentos cítricos, poderíamos pensar que se trata de desordens do fígado, se vemos um paciente com uma cor avermelhada no rosto e informando que tem a boca amarga poderíamos pensar que existem desordem do coração. A desordem do baço acompanhado de um aspecto facial esverdeado implica que a mãe (Fígado, Madeira) está em excesso-dominância sobre o filho (Baço, Terra). Se um paciente tem desordem de coração, e seu aspecto facial é escuro, isso implica que a Água (Rim) está dominando o Fogo (Coração).  Compreendendo bem essas correlações mencionadas acima podemos controlar a evolução da enfermidade, tratando e curando a enfermidade no seu período inicial.

As teorias de yin e yang e dos cinco elementos são dois pontos de vista sobre a natureza, que existe desde a China antiga, conceitos materialistas e dialéticos rudimentares que refletem em diferentes aspectos a lei objetiva das coisas. Estas tem um significado prático na explicação das atividades fisiológicas e nas mudanças patológicas, e servem de guia pra a prática clínica. As teorias do yin e yang e dos cinco elementos se vinculam e se completam reciprocamente. Devemos redobrar esforços para sintetizar e melhorar constantemente os pontos fracos que ainda existem nestas teorias afim de promover e desenvolver a medicina tradicional chinesa.

É de suma importância o conhecimento de como se desenvolve a teoria do cinco elementos e toda a sua relação com o organismo, com os órgãos zang-fu, com o ambiente, com o todo, caso não tenha essa compreensão se torna impossível tratar um paciente, diagnosticar uma patologia e adotar um protocolo de pontos para aplicar o tratamento seja por acupuntura ou moxabustão.

Teoria Yin e Yang aplicada na Medicina Chinesa

O símbolo do Yin-Yang por muito tempo vem sendo interpretado de forma errada aqui no ocidente, a forma mais comum de interpretação é quando se diz que é “o bem e o mal, o mal dentro do bem e o bem dentro do mal” geralmente essa interpretação se dá por conta das cores branca (bom, a analogia de paz) e preta (ruim, analogia com o lado negro), que é totalmente equivocada e carente de conhecimento e do contexto em que se engloba essa teoria tão famosa.

Relação Yin-Yang na Medicina

As teorias do Yin-Yang e dos cinco elementos são tão antigas que datam desde a antiguidade da China.
A teoria Yin-Yang sustenta que todo fenômeno ou coisa no universo carrega dois aspectos opostos: Yin e Yang, os quais são tanto contradição e interdependência. A relação entre yin e yang é a lei universal do mundo material, principio e razão da existência de milhões de coisas e causa do aparecimento e desaparecimento de tudo. A teoria do Yin-Yang consiste principalmente dos princípios de oposição, interdependência, crescimento e diminuição e intertransformação do yin e yang. Estas relações entre yin e yang são amplamente usadas na medicina tradicional chinesa para explicar a fisiologia e patologia do corpo humano e servem de guia para o diagnóstico e tratamento do trabalho clínico.

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Oposição e interdependência do Yin e Yang

A oposição entre Yin e Yang é a contradição e luta entre duas forças dentro uma coisa ou fenômeno para manter o equilíbrio do mesmo. Os antigos usavam a água e o fogo para simbolizar as propriedades do yin e yang. As propriedades básicas do Yin são parecidas com a água (fria, escura, tendência a fluir para baixo/descer, etc), enquanto que as propriedades básicas do Yang são parecidas com o fogo (calor, brilho/luz, tendência para cima/subir, etc). Pode-se usar como analogia qualquer coisa que tenha características de quietude, frio, inferioridade (direção para baixo), interioridade (direção para dentro), escuro, inibição, astenia, lentidão, substancia, etc, pertence ao Yin; enquanto que todas as coisas que tenham as características de movimento, calor, superioridade (direção para cima), exterioridade (direção para fora), brilho, vitalidade, excitação, rapidez, insubstancialidade, etc, pertence ao Yang.
Dessa forma a natureza de uma coisa só existe por comparação de sua natureza yin-yang e também que o mesmo pode ser dividido infinitamente, de maneira nenhuma absoluta, mas relativa. Sob certas circunstancias as duas forças opostas de uma coisa pode mudar, de modo que a natureza yin-yang de uma coisa também muda. Assim também existem estados em que yin está dentro de yin, yang dentro de yang, yin dentro de yang e yang dentro de yin. Este conceito é consistente com a realidade objetiva.
Os tecidos e órgãos do corpo humano podem pertencer a yin ou yang, de acordo com sua posição ou função relativa. Tomando o corpo como um todo, a superfície corporal e as quatro extremidades, por estar no exterior do corpo, pertencem a Yang, por outro lado que os órgãos zang-fu, por estar no interior, pertencem a Yin. Considerando a superfície corporal e as extremidades de modo particular, a região dorsal pertence ao yang, o tórax e o abdômen pertencem ao yin, a parte superior da cintura pertence ao yang e a parte inferior pertence ao yin, à face externa das quatro extremidades é yang e a parte interna é yin, os meridianos que passam pela face interna das extremidades são Yin e os que passam pela face externa são Yang. Quando se fala dos órgãos zang-fu, os órgãos Fu suja função principal é transportar e digerir os alimentos são de natureza yang, enquanto que os órgãos Zang cuja função é armazenar a essência e a energia vital é de natureza yin. Cada um dos órgãos zang-fu pode, por sua vez, conter yin e yang, por isso muitas vezes se fala de yin e yang do rim, yin e yang do estomago, etc. Em resumo, não importa quão complicado são os tecidos ou estruturas do corpo humano assim como suas atividades e funções, o certo é que todos podem ser explicados pela relação de yin e yang.
A relação de interdependência entre yin e yang significa que cada um dos dois aspectos é uma condição para a existência do outro e nenhum deles pode existir isoladamente. Por exemplo, sem o dia não haveria noite, sem excitação não haveria inibição. A partir disso podemos encontrar algumas vezes yin e yang em oposição, intergeração e interdependência. A existência de um depende do outro, e ao mesmo tempo se opõe um ao outro em um único local. A mudança e movimento de uma coisa não se deve somente a oposição e o conflito entre yin e yang é também a sua relação de interdependência (coexistência) e apoio mútuo.
Em atividades fisiológicas, transformação de substancias ou vice-versa, verifica a teoria da relação de interdependência entre yin e yang. A substancia pertence ao yin e a função pertence ao yang. A substancia é o fundamento da função, e está reflete a existência da substancia e também a força motriz que produz as substancias. As atividades funcionais dos órgãos zang-fu só se encontram em equilíbrio quando há nutrientes suficientes, e unicamente neste caso de equilíbrio as atividades funcionais são capazes de promover a produção de substancias e nutrientes. A coordenação e equilíbrio entre substancia e função são de garantia vital das atividades fisiológicas. O Neijing diz “Yin se instala no interior como a base material de yang, portanto yang pertence ao exterior como manifestação da função de yin”.

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Relação de crescimento-decrescimento e Intertransformação entre yin e yang

Decrescer implica em perder ou debilitar e crescer implica em ganhar ou reforçar. Estes dois aspectos de yin e yang dentro de uma coisa não são estáticos, mas dinâmicos permanentes. O decrescimento ou crescimento do yin ou yang afeta inevitavelmente a mudança do yang ou yin pela relação de interoposição e interdependência de ambos. Por exemplo, o decrescimento de yin conduz ao crescimento de yang e o decrescimento de yang conduz ao crescimento de yin, e vice versa. As atividades funcionais do corpo humano requer uma certa quantidade de nutrientes, exemplificando assim o processo de decrescimento de yin e crescimento de yang, entretanto a formação e armazenamento de substancias nutritivas dependem das atividades funcionais e enfraquecem a energia funcional produzindo um aumento de yin e um decrescimento de yang. Mas este descrescimento-crescimento mútuo é impossível que se mantenha sempre em uma posição de equilíbrio absoluto. Em condições normais se mantem um balanço relativo, em condições anormais predominará ou yin ou yang.
No processo de crescimento e decrescimento mútuo, quando há uma manifestação de perca no balanço relativo entre yin e yang, também existe uma incapacidade para corrigir este desequilíbrio, surgirá predomínio do yin ou yang. Este é o fator causal da enfermidade. Por exemplo, a preponderância de yin consome o yang,  é o fator causante da enfermidade. Por exemplo, a ascensão do yin consome o yang, uma debilidade de yang conduz a um domínio de yin, e em qualquer desses casos se origina uma síndrome de frio. Por outro lado, a ascensão de yang consume o yin, a debilidade de yin propicia a o predomínio de yang, e em ambos os casos se origina uma síndrome de calor. Porém, as síndromes de calor ou frio devido a preponderância de fatores nocivos pertencem ao tipo shi (por excesso), enquanto que as síndromes de frio ou calor devido a diminuição de resistência corporal geral pertencem ao tipo xu (por deficiência). Estes dois tipos de síndromes são diferentes em natureza, em consequência, os princípios para o tratamento também são diferentes, por exemplo, para as síndromes de shi (excesso), se usa o método de dispersão (xie), e para as síndromes de xu (deficiência), o método de tonificação (bu).
Já que a enfermidade se deve ao desequilíbrio entre yin e yang, todos os métodos de tratamento deveram ser dirigidos para corrigir o desequilíbrio. No tratamento por acupuntura existem métodos de seleção de pontos do lado direito para tratar transtornos do lado esquerdo e vice-versa, ou selecionar pontos da parte inferior do corpo para tratar transtornos da parte superior e vice-versa.  Todos estes métodos se baseiam em um conceito: o corpo é um todo, e seu propósito é reajustar a relação entre yin e yang e promover a circulação de qi (energia) e xue (sangue).

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Xu (deficiência) e Shi (excesso) são dois princípios de diferenciação de síndromes. Xu (deficiência) implica na debilidade de resistência do corpo devido a hipofunção ou insuficiência de certos materiais. Shi indica a condição patológica quando o fator exógeno etiológico é violento enquanto que a resistência geral do corpo está todavia intacta.

A intertransformação do yin e yang significa que sob certas circunstancias cada um dos dois aspectos yin e yang dentro de cada uma das coisas se transforma por si mesmo em seu oposto, por exemplo, yin pode transformar-se em yang, e yang em yin. Para que a transformação possa acontecer depende principalmente que exista a possibilidade de mudança da mesma coisa, e também, são indispensáveis as condições externas.
Para o desenvolvimento e a mudança de uma coisa é necessário um processo, um lapso de tempo, e as condições externas para a intertransformação das coisas é também gradualmente aperfeiçoado. O mesmo ocorre na intertransformação de yin e yang. O Neijing diz “depois do movimento deve haver calmaria, yang se transforma em yin”, e continua “a geração de uma coisa se deve a transformação, a degeneração de uma coisa se deve a transformação”. Isto quer dizer que quando uma coisa chega a um certo limite, é inevitável uma mudança na direção oposta, ou seja que uma mudança quantitativa conduz a uma mudança qualitativa.
A intertransformação do yin e yang é a lei universal que governa o desenvolvimento e a mudança das coisas. Por exemplo, a primavera começa com seu calor quando o frio do inverno chega ao seu máximo, o frescor do outono chega quando o calor do verão chega em seu máximo. A mesma coisa é a transformação da natureza da enfermidade. Um enfermo que sofre uma crise febril aguda, depois da febre alta contínua começa uma diminuição da temperatura corporal, palidez, extremidades frias e pulso fraco e filiforme. Isto indica que a enfermidade do paciente esta se transformado de yang para yin e o método de tratamento varia de acordo com as mudanças.
O que foi dito é uma breve introdução da teoria do yin-yang e sua aplicação na medicina tradicional chinesa. Em resumo, a relação de oposição, interdependência, crescimento e decrescimento e intertransformação do yin e yang pode ser resumida como a lei da unidade dos contrários. Estas quatro relações não estão isoladas, mas em uma estreita correlação, se influenciam mutuamente e cada um é a causa ou efeito do outro sobre desenvolvem e mudança as coisas.